

“Conta pra ela, vai. Chega nela e fala. Fecha os olhos, se for preciso. Fecha os olhos e finge que é pro espelho, como você já fez uma vez. Diz pra ela que você sente muito. Que se arrepende de todas às vezes em que poderia ter mudado a situação com poucas palavrinhas (e evitado algumas noites de choro e preocupação da parte dela), mas ao invés disso só ficou parado sem falar nada, como o idiota que é. Pede desculpas por quando ficou confuso entre um ex amor do passado que ainda te balançava, um possível caso pro futuro que te excitava e entre ela. Pede desculpa por ter deixado ela como última opção quando você era a única escolha. Confessa que se sente culpado por todas às vezes que estragou os possíveis relacionamentos dela provocando-a e fazendo ela cair na sua de novo, mesmo que isso seja a mentira mais descarada do mundo e que você não se arrependa. Assume que é egoísta e não sabe perder, que é atrapalhado e não sabe possuir, que é mimado e mandão e que tudo tem que ser do seu jeito, que é orgulhoso e pra você você sempre tá certo, que é pior do que criança, que é infantil, que é canalha, galinha… Como se ela não te conhecesse melhor do que você. Se humilha, se for preciso. Fala que vai compensar pelas noites de sono perdidas, pelas lágrimas desperdiçadas no travesseiro, pelas dores de cabeça, pelos cortes, por tudo. No fundo ela só espera um sinalzinho verde pra não desistir, uma confirmaçãozinha de que você ainda tá nessa junto com ela. Mas não deixa ela cansar de vez de você.”

“Somos aquela história insuperável, que sempre tem o mesmo começo-meio-fim, mas que nunca acaba, não como as outras que acabam com todo aquele melodrama digno de um filme da Tela Quente. Já tivemos inúmeros começos, dezenas de finais e incontáveis despedidas, mas nunca, nunca mesmo, a gente se deixou. Mesmo brigando, a gente se falava, se xingava, se cuidava, a gente sempre se pertencia durante todas as despedidas e fins que na verdade nunca foram de fato fins. Meu amor, não somos doces, nem perfeitos, e nunca seremos o famoso casal que posa para fotos e tem inúmeros admiradores, mas de todos os nossos defeitos, de todas as nossas manias ridículas e nada educadas, eu sei que a gente é mais verdadeiro do que metade desses casais que andam por aí pra baixo e pra cima de mãozinha dada e dando selinho até no cachorro que passa latindo ao lado deles. A gente não quer ser assim, não vamos nos amar para todos, vamos nos amar quando estivermos somente nós dois, sentados na frente da televisão brigando pelo controle remoto enquanto passa algo inútil (e nem tão disputado assim) na televisão. Nós vamos nos amar durante as brigas, durante os fins, até mesmo durante o banho, mas nunca vamos gritar pra todo mundo ouvir o quanto a gente se gosta e o quanto não queremos viver um longe do outro. Vamos rir, gritar, xingar, beijar, bater e perder a paciência, mas nunca na frente de alguém, nunca mostrando aos outros algo que é só nosso e é tão guardadinho que pode-se dizer que nosso amor é segredo. É segredo porque ninguém imagina o quanto a gente se ama, porque ninguém faz ideia do quanto a gente se xinga e do quanto a gente se beija depois desses xingamentos; porque também ninguém sabe e nunca vai saber o quanto é difícil tudo isso, o quanto é difícil suportar os minutos de silêncio e as lágrimas de raiva. Ninguém sabe o que a gente sente, ninguém imagina o quanto a gente sente. E eu gosto assim, gosto de saber que apesar da loucura que eu vivo e posso viver a qualquer momento, no final da tarde tem você e o nosso segredo para me manter viva e em pé enquanto o mundo desmorona do lado de fora do nosso amor.”